A Semana

março 18th, 20106:10 pm @ Zarinha Centro de Cultura

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A Semana

Machado de Assis é um velho conhecido do leitor lusófono. Sua posição nas letras brasileiras não apenas é proeminente: beira a unanimidade. Nenhum outro escritor de nossa terra goza do mesmo prestígio, é tão citado e imitado, desperta tanta admiração e reverência quanto o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mesmo quando se consideram as pessoas que pouco ou nada leem, em um país de iletrados ou de letrados que abdicam do direito à leitura. Se, por um lado, o gênio de Guimarães Rosa também é louvado, por outro, não conta com a mesma popularidade do Bruxo do Cosme Velho. Se Paulo Coelho é popularíssimo, não merece o respeito, sequer a atenção, da crítica, da Academia nem de leitores maduros.

Apesar disso, ainda há um Machado imperdível, mas bastante pouco explorado pela maioria dos leitores: o cronista. A obra do escritor se estende por diversos gêneros, incluindo poesia e teatro, mas ele foi consagrado por sua prosa. A de ficção é a mais lida, estudada e festejada. A Capitu pintada por Bentinho já foi transposta para o cinema e para a televisão, assim como o defunto narrador Brás Cubas, ambos incessante e crescentemente destrinçados em programas de pós-graduação. Para quem já conhece e ama os escritos do autor, é firmemente recomendável aventurar-se em suas crônicas.

Além de ficcionista e servidor público, Machado escreveu, para a Gazeta de Notícias, textos acerca de assuntos variados de semanas da década de 1890. São peças inevitavelmente marcadas pelo tempo, mas que guardam tanto interesse histórico quanto literário. O primeiro dirige-se ao pensamento e às opiniões do indivíduo Machado de Assis, bem como aos eventos e atores os quais marcaram a transição da Monarquia para a República no Brasil. O interesse literário está na linguagem esmerada e expressiva, mas leve, na ironia refinada e na capacidade de transitar, com naturalidade, por temas como literatura, cotidiano, economia, história, fazendo volteios de valsa com o leitor, que passa de considerações abstratas ao concreto do dia-a-dia, em movimento que se repete até o fim da crônica, quando as pontas são magistralmente unidas pela pena do cronista.

Para quem conhece a obra machadiana e sabe que clássicos são sempre inesgotáveis, ler as crônicas equivalerá a descobrir um manuscrito perdido daquele seu autor predileto cujas obras você já lera e relera. Os que pouco conhecem Machado e encararem esses textos farão um percurso inusitado, arriscado para leitores em formação, mas nem por isso menos interessante. Há edições variadas à disposição no mercado, consistindo em seleções particulares das crônicas que saíram nos jornais. Na Internet, inclusive, há edições eletrônicas com acesso gratuito.

Texto de autoria de Ramon Limeira Cavalcanti de Arruda, bacharel em Filosofia pela UFPB e Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores.

A referida obra encontra-se disponível no portal Domínio Público, do Governo Federal, cujo endereço é http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1963

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